O PAPEL É O MELHOR OUVINTE, PORQUE NÃO TE ESCUTA SÓ PRA ESPERAR A VEZ DE FALAR






segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Nostalgie


- por Camilla Lopes

No fundo da sua alma, esperava um acontecimento. Como marujos em perigo, seus olhos desesperados sondavam as solidões da vida a que fora destinada, procurando na distância alguma vela branca, nas brumas do horizonte. Esse acontecimento era uma incógnita. Todas as manhãs, ao despertar, tinha a impressão de que ele ocorreria no transcorrer daquele dia. Ouvia todos os ruídos, erguia-se em sobressalto, espantada de que o acontecimento não chegasse. Ao pôr do sol, sempre mais triste, desejava que o dia seguinte não tardasse. – Madame Bovary

O próprio Gustave Flaubert, autor do livro, certa vez confessou: “Emma Bovary c’est moi”. Eu ousaria ir mais fundo: todos somos. Quem nunca ficou aflito de ansiedade para algo acontecer em sua vida mesmo quando tudo estava em seu devido lugar que atire a primeira pedra. Talvez o problema seja exatamente tudo estar em seu lugar. Ok, eu devo estar falando o óbvio. A felicidade não está no objetivo alcançado, mas no caminho percorrido, certo? Certo. O real problema, acho, é quando começamos a pensar em coisas que aconteceram e que gostaríamos que acontecessem de novo, ou então que idealizamos e não se concretizaram do jeito esperado. Às vezes até mesmo o que queremos dizer acaba perdendo o contexto e ficando para trás. Pela atual estabilidade, acabamos perdidos nas lembranças - tanto do que foi, quanto do que teria sido -, as quais pouco a pouco se apagam. “Os detalhes se enevoaram, mas a saudade ficou”. É, queridos. Ninguém vive cada dia como se fosse o último.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Solilóquio

-por Otávio Silva


 

-Ninguém vai ouvir você. Ou pelo menos não porque realmente quer. Ah, já lhe ouviram? Tudo bem, foi só para esperarem a vez de falar. Olha, se você quiser que alguém lhe ouça, contrate um psicólogo, psiquiatra, terapeuta, ou coisa do gênero. É verdade. As pessoas gostam é de falar! Falam de si mesmas, falam de você, falam dos outros, falam de mim... "Falem bem, falem mal..."? Ah, isso não funciona pra mim, sério. Peço para que, por favor, não falem de mim. A opinião dos outros não me importa. Nem um pouco. Eu falo dos outros? Claro que não. Se eu vejo alguém diferente na rua? Ah... Talvez eu guarde pra mim. Pensar também é falar? Bom, é falar consigo mesmo, não é? Isso também conta? Bobagem! Poxa, mas se mostrar pros outros é muito difícil, deixar máscaras e personagens, espinhos e armaduras é ruim, muitas vezes. Aceitar meus próprios defeitos? Que defeitos, tá doido? Tá bom, todos nós temos defeitos. Mas eu não quero que os outros saibam dos meus!

    -Deixar a vaidade e a auto-estima de lado e aceitar os seus próprios defeitos e falhas são os primeiros passos pra começar a aceitar os defeitos dos outros, e com isso, se livrar de camadas de orgulho, inveja, parar de alto estimar os outros e reparar mais no próprio umbigo.

    -Pronto, já falou? Posso falar agora? Escute, se quiser ser escutado, procure um papel e uma caneta. Eles são os únicos que vão te escutar sem esperar a vez de falar, eu não.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Frère Jacques

-por Otávio Silva


Há quanto tempo você não dorme?

Você dorme?

Eu digo: você realmente dorme?

Você consegue passar uma madrugada inteira na cama sem se levantar pra nada antes do necessário?

Será?


Será que não tem uma torneira aberta?


Será que não tem uma porta aberta?


Feche-as, pois entra vento pelas portas e a água da torneira corre bem rápida!

E você não vai nem querer ver o estrago na sua conta no final do mês.


Será que você vai conseguir pagá-la?

Ainda tem todas as outras também.


Será que todos estão bem?

Fique tranqüilo: notícia ruim corre rápido e se acontecer algo com alguém que não está por perto, você não vai poder fazer nada mesmo.


Será que é dor de barriga?

Ou de garganta? Ou de cabeça?


Será que sua consciência pesa escondida no travesseiro?

Será que todos vão descobrir?
Descobrir o quê?

Que você não consegue dormir.


Frère Jacques

Frère Jacques

Dormez-vous?

Dormez-vous?


Sonnez les matines,

Sonnez les matines.

Ding, ding, dong.

Ding, ding, dong.

sábado, 7 de agosto de 2010

Happiness is Only Real When Shared

-por Otávio Silva


 

    -Que felicidade! Eu não poderia estar mais feliz!

    -Isto é óbvio.

    -Jura?! Está tão na cara? Deve estar escrito na minha testa, não é?

    -Não, na sua cara só os mesmos óculos tortos e as espinhas de sempre. E na testa, algumas rugas novas, pra falar a verdade.

    -Poxa! Não precisava me lembrar dessas coisas. Mas por que raios você disse que é óbvio eu não poder estar mais feliz?

    -Porque isto é impossível.

    -Ahn?!

    -Felicidade é só um sentimento. Não dá pra medir sentimentos.

    -Claro que dá!

    -Em qual escala? Metros, quilogramas? Graus centígrados, talvez?

    -Em nenhuma destas, oras! Mede-se pelo número de sorrisos na cara por dia.

    -Ah, deixa de besteira! E os sorrisos amarelos, entram na conta?

    -Ah... Estes não contam...

    -Não faz sentido. Os sentimentos são abstrações ideais e subjetivas dos seres humanos: nenhum tipo de objetivação seria capaz de calculá-los.

    -Então somos todos felizes iguais?

    -Não. Claro que não. Pessoas são felizes ou não, simplesmente. E mais: "feliz" foi só o nome que alguém inventou pra descrever sua própria abstração. Portanto, se você pensa que sente a mesma coisa que esse alguém, chame-se de "feliz"; se não, não.

    -E o que é que significa "ser feliz", então?

    -Pelo nosso queridíssimo amigo dicionário, felizes são aqueles que se sentem satisfeitos e contentes. E vai de cada um se sentir feliz com o que for.

-Ah, mas que mediocridade! Pensamento pequeno, amigo!

-Este é o problema: ultimamente as pessoas querem ter sempre mais e mais e nunca se contentam: o carro mais rápido, o celular menor, o tênis da moda; nunca se sentem satisfeitos: querem ser o vencedor, o número 1, nota 10, sucesso sempre... Nada é o suficiente.

    -É isso aí! O segundo lugar é o primeiro dos perdedores.

    -Então tá. Vá ser o primeiro colocado e vencedor sozinho enquanto eu vivo em festa com os perdedores.

    

terça-feira, 3 de agosto de 2010

“Isto é só um lugar e não um destino.”

-por Otávio Silva


 

O mundo dá voltas

E nós damos voltas no mundo

O que hoje é aqui

Amanhã lá será

Junto com o ontem que passou já.


 

O tempo é independente

De você, das suas obrigações

Dos seus problemas e felicidades

Ele não pára nunca

Por mais que você queira


 

Por mais que você corra,

Sempre vai ficar pra trás.


 

Por mais que você aproveite cada segundo,

Cada mísero segundo é cruel.


 

Passa, deixa seu rastro invisível

E vai embora

Para nunca mais voltar

Pra você nunca mais encontrá-lo.


 

Não pare no tempo.

Ele não vai parar em você.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Bobeira

-por Otávio Silva


Autocontrole. Como o próprio nome diz, é o controle de algo por si mesmo; a condução autônoma de seus próprios recursos. Vai de desencontro com aqueles que se defendem a administração da vida de acordo com os instintos e emoções, pois o autocontrole é, de forma sucinta, a prevalência da razão sobre a emoção. Mas, sobretudo, de uma razão filosófica e moral.

O homem é chamado de ser humano por carregar consigo duas partes que compõem sua essência: a do SER, que se refere ao corpo, ao biológico, instintivo e a HUMANA, que diz respeito à mente, à alma, à intuição. Esta parte, claramente, se responsabiliza pelo conhecimento e compreensão das coisas. Enquanto a primeira carrega os sentidos de forma mais primitiva possível: visão, audição, olfato, tato e paladar, que podem se relacionar de forma independente da razão pelas sensações: fome, sede, frio, quente, enfim, paixões outras que interferem demais no comportamento do homem contemporâneo.

Interfere no modo em que pessoas de uma maneira geral se deixam levar por sentimentos passageiros sem perceber o que os levam a tal ponto. Ou seja, as pessoas são controladas e submetidas a regimes de hierarquias corrompidas ou artificiais, sem ter noção disto. E essa verticalização forçada é resultante justamente dessa preferência humana por seu lado animal: os empregados são controlados por seus patrões, pois dependem do dinheiro que estes lhes oferecem para que possam ter o que comer, sem questionar se tal emprego é justamente aquilo que querem ou o que tem vocação para exercer.

Além disso, o autocontrole nos ajuda a alcançar objetivos e explorar vocações. Entre o prazer imediato e hedonista e o sucesso e a construção de felicidade, há uma grande distância. Para aquele, não se precisa de muito esforço e a realização é vazia e sem significado, abrindo espaço, inclusive, para ações de má-fé para com outros e buscas rápidas e oportunas de conseguir o que se quer. Já para o sucesso, é necessário uma motivação e um esforço que são mantidos pelo foco e pela concentração que o autocontrole traz, no sentido de deixar de lado prazeres insignificantes em busca de algo maior, mas conquistado apenas em longo prazo.

Eis que a filosofia moral se faz importante. As coisas de bem são de bem não porque Deus ou alguém nos diz que são. Justamente por serem boas, que as coisas boas são aconselhadas. Por isso, parece que nos é intrínseco distinguir o bem do mal, o certo do errado. Assim, se todos conseguíssemos deixar nossos vícios emocionais animalescos como a ganância, o ódio, a presunção de lado, poderíamos até quem sabe viver numa anarquia, em que todos seriam controlados pela própria razão e honestidade...

Chegando ao final do meu texto, este me parece mais um conto de fadas do que qualquer outra coisa. Como a anarquia até hoje nunca existiu e é tratada como algo impossível ou utópico...


"Pode avisar, podem avisar:

Invente uma doença que me
Deixe em casa pra sonhar!

[...]

Me deixa que hoje eu to de
Bobeira, bobeira

[...]

...Hoje eu desafio o mundo
Sem sair da minha casa.
Hoje eu sou um homem mais sincero
E mais justo comigo"

Me Deixa

O Rappa

(Composição: Marcelo Yuka)

domingo, 25 de julho de 2010

Minha Culpa

-por Otávio Silva


 

A culpa é relacionada à responsabilidade, ao erro, ao fracasso. Outras vezes, diz respeito ao pecaminoso ou imoral. Já ouvi dizer que a culpa é um saco! Um saco cheio de tijolos que se carrega sobre as costas e que não vale à pena carregar tal fardo ao longo da vida.

Acho que pra isso inventaram a 'desculpa', o perdão. O pedido e a concessão. Como um ato, ocasionalmente até divino, para livrar alguém daquele saco, num alívio.

Tijolos são utilizados para construírem algo. Se você deixar um saco com os seus por aí, como ficará sua obra?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Palavramento

-por Otávio Silva


 

Dizem que uma imagem vale

Mais do que mil palavras

Heresia. Não é verdade.

Tente dizer isso sem uma única palavra.

...


 

Em contrapartida, um só conceito

E mais de mil imagens podem estar em formação

No seu pensamento

Através da imaginação


 

Ler e falar, escrever e ouvir

São sinônimos de pensar

Suas letras representam o refletir

Depois de se materializar

 

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Máquina de Fazer Vilão

-por Otávio Silva


 

    A frustração é como uma promessa não cumprida. Deixa-te na mão. É como o sangue que saiu do coração em direção ao corpo com a promessa de voltar, mas não voltou. É como a percepção no último dia das tão esperadas férias que elas não foram aproveitadas. Não tem para onde fugir. Não tem para onde correr. No final, somos só nós dois: eu e você, frustração. De mãos dadas. Olhos nos olhos. Boca na boca. Sinto-lhe inteira sobre mim, mesmo antes de me tocar. Flutuante no ar, literalmente. Expande-se no ar, como um gás exotérmico, liberando seu calor para todo o ambiente. Banha o quarto. E me afoga. Lentamente. Muito. Muito lentamente. Como se a cada instante de tempo, o espaço no relógio não acompanhasse. Afoga... Sufoca... Mas se esquece de me matar. Tortura as minhas lembranças. Ataca aos meus desejos. Sem dó, nem pena, coração ou compaixão, nem nada. É pior que o arrependimento e que a saudade. É a sensação de que fez tudo que podia e não conseguiu. É o sentimento de falta daquilo que nunca teve. A ideia de que não mudaria nada se tivesse a oportunidade de fazer de novo. E do mesmo modo como me deixou a um fio dos objetivos, me deixa a um fio da morte agora, a um fio de cabelo de um beijo. E ela fica aqui, bem a minha frente, todos os dias, os dias todos. Não me pede perdão, não me deixa e não se apaga...

    O melhor remédio? Vingança. Frustre a frustração...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Tempestade em Copos de Água e Café

-por Otávio Silva


Casaram-se lá pro mês de outubro do ano passado, na primavera. Depois de cinco anos namorando, era tempo já. Terminaram a faculdade, arrumaram emprego. Ela não agüentava mais a pressão da família pra saber quando seria o casório, além de estar curiosa e ansiosa pra conhecer o 'mundo de casado'. Ele estava cansado de brincar com a vida, queria assumir perante toda a sociedade uma vida séria, se desvencilhar do cordão umbilical da mãe e do dinheiro do pai, de uma vez por todas. Ambos se decepcionaram.

Mal chegamos a maio e tive de recebê-los em meu escritório. Trabalho como advogado civil em casos de família e, semana passada, eles me procuraram para entrar com pedido de separação e divórcio. Como instruído nos anos de faculdade, indaguei-os sobre os motivos que os traziam até mim para uma tentativa de reconciliação ou acordo. E bem, eu aconselharia os jovens formandos e aspirantes à profissão, de não tentarem isso. Ou senão, terão que colocar um divã no meio do seu escritório...

Sentido-os um pouco nervosos, servi-lhes dois copos cheios de água para se acalmarem. Nenhum dos dois sequer tocou seu próprio copo. Sentei-me na ponta da mesa, como se estivesse entre eles. O lábio inferior dela era constantemente atacado pelos dentes. Ele, apesar do ar frio e calmo, não conseguia abrir as sobrancelhas, nem direcionar os olhos a um lugar só.

O clima na sala não era tenso. Era enevoado por pólvora e foi só eu iniciar as primeiras palavras, para os dois começarem a explodir seus sentimentos e emoções que ainda nutriam um pelo outro. Acusações, reclamações, reivindicações, uma série de ações que impressionantemente nos levou ao primeiro dia de cônjuges morando sob o mesmo teto.

Após ele conseguir um belo e estável emprego, se casaram na mesma igrejinha que os pais dela. Após viajarem por quase três semanas por quase a Europa inteira em uma maravilhosa lua-de-mel, compraram uma casinha, com a ajuda da família e amigos, para morarem juntos. E depois de toda bagunça e da mudança, lá se foram eles. Como relatado por ela e confirmado, por vezes até complementado, por ele, o primeiro dia transcorreu da seguinte maneira, que eu penso que resume bem o relacionamento em questão como um todo e muitos outros...

Acordaram juntos de manhã, se demoraram um pouco na cama. Ela foi tomar banho enquanto ele tinha seus cinco minutinhos mais. Quando ela saiu do banheiro, ele entrou. Como era o primeiro dia deles morando juntos, ela resolveu colocar a toalha de linho branca que sua mãe dera para eles como presente de casamento. Assim como era tradição da família dela, as mulheres se casarem naquela igrejinha de bairro, era também a mãe dar uma toalha de linho branca quando a filha se casasse.

Ela, que nunca fizera nenhuma tarefa doméstica em sua casa e jurara de pés juntos para a família inteira durante toda adolescência que não as faria para marido nenhum, agora já tinha posto a mesa e preparado o café. E ele se juntou a ela, sentando ao seu lado, selando-lhe um beijo e amarrando a gravata, ao mesmo tempo. Olhou no relógio e descobriu-se mais atrasado do que pensara e por isso, ignorou os pães, frutas, frios e tudo que havia na mesa, colocando apenas um pouco de café na xícara. Já levantando-se e despedindo-se da querida esposa para ir trabalhar e ganhar dinheiro para a casa, ele deixou cair algumas gotas em sua camisa que vestia e na toalha.

Eu agora me sentia um celibatário ouvindo-a confessar sentir-se nervosíssima com tudo aquilo, para a surpresa do seu ainda marido. Os dois concordaram que naquele dia, ela não demonstrou nenhuma irritação. E ela defendeu-se dizendo que querendo ser uma boa esposa e a fim de não começar a desgastar a relação, relevou aquilo tudo e se propôs imediatamente a lavar a camisa e a toalha de mesa.

E enquanto eles falavam e desabafavam, os copos deles iam se esvaziando gradativamente. Centímetro a centímetro, de vagarosamente, sem eu perceber.

Bom, ele trocou a camisa, e foi trabalhar. E ela, ficou em casa. A toalha de linho ficou manchada e apesar de sua dificuldade em manusear os aparelhos todos de limpeza, secagem e passagem da camisa, esta não ficou com a mancha do café e então, foi devolvê-la ao guarda-roupa do marido, quando se deparou com a toalha de banho dele molhada e jogada em cima da cama. Confessou-me novamente a sua revolta, mas novamente, diante da surpresa dele no escritório, admitiu ter engolido seu sentimento, relevado mais uma vez o fato e ter simplesmente, devolvido a toalha a seu devido lugar.

Neste momento, sem eu ao menos notar ela fazer alguma pausa para as goladas, vi o copo dela praticamente vazio. Restava pouco para acabar quando o esposo, que apenas completava as falas dela, talvez por sentir-se vítima diante do já exposto e decidiu tornar-se primeira pessoa da história.

Na volta do trabalho, o marido, já cansado e faminto, fez-se de bom moço, e engoliu saliva para matar a fome, enquanto juntou-se à sua querida esposa no sofá da sala em frente à TV, por algum tempo. Após namorarem e se curtirem um pouco, foram à mesa, onde ela serviu um bife à parmegiana, que tentara aprender naquela tarde telefonando para a sogra. Ao experimentá-lo, para o susto dela, disse ter perguntado a si mesmo se fora banhado em água do mar, de tão salgado. Mas não fez menção nenhuma ao desgostoso sabor da comida, para não desencorajá-la na cozinha ou magoá-la.

Engraçado como notei que depois que ele falou, o copo dele havia esvaziado um pouco. E continuou...

Chegando ao armário, uma camisa no meio das outras o chamou atenção. Tinha uma marca de ferro de passar. Bem de leve, quase imperceptível talvez para alguém que não a usaria. Mas não para ele. Mas não pra ela, ele reclamou ou chiou. Simplesmente, não a usou mais. Relevou. Engoliu. Eu só não o vi engolir nada de água e para a minha admiração, seu copo já estava quase vazio.

Este primeiro dia retratado por eles foi parecido com o quarto, e também com o décimo. O vigésimo teve algo disso novamente e eu não sabia quando nem como pedir para eles pararem. Não sabia mais o que fazer. Não sabia se ali era o lugar para aquilo e ao mesmo tempo, sentia pena daqueles dois. Era óbvio o quanto eles ainda se gostavam desabafando todas as lembranças e sentimentos.

Não sabia por aonde ir. Sou advogado, não psicólogo ou conselheiro amoroso. Dizem que a justiça é cega, e o amor também. Às vezes, procuramos a melhor coisa a se fazer sem olhar a quem, pela justiça. E em outras, procuramos a melhor pessoa pra fazer o impossível, por amor. Quem é cego, não olha. Quem não olha, não vê. Quem não vê, não assiste. Quem não assiste, não atende. E atender é justamente aquilo que as pessoas procuram umas nas outras. Seja em contratos que atendam às necessidades comerciais de uma empresa, ou em compromissos amorosos que atendam às necessidades emotivas e carnais de cada um. E quem não vê, pelos outros sentidos consegue reconhecer algo, porque reconhecer é saber que é o objeto, mas não o conhece, pois conhecer é saber como ele é e sem um dos sentidos já se tem essa percepção afetada.

E assim, o que fiz foi encaminhá-los a um terapeuta amigo meu, da época de colégio pra ver se conseguiam fazer esvaziar a paciência deles, até a última gota. Seja de café, ou de água.