O PAPEL É O MELHOR OUVINTE, PORQUE NÃO TE ESCUTA SÓ PRA ESPERAR A VEZ DE FALAR






terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Heróis e vilões: a inversão de papéis sociais

-por Matheus Andrés e Otávio Silva

Ativos no inconsciente coletivo, como descrito por Carl Jung, estão os arquétipos: imagens que se originam da constante repetição da mesma experiência ao longo de gerações. Dentre elas, podemos citar o de Si-Mesmo, do Velho-Sábio, da Grande Mãe, da Morte e do Herói, entre outros. Foi, sobretudo, explorando este último que surgiram as inúmeras histórias de contos infantis e de fadas, bem como as mais atuais epopéias hollywoodianas ou de desenhos animados.
Os famosos super-heróis são aqueles que fazem de tudo pelos seus ideais, defendem famílias e crianças em apuros e combatem o crime, certo? Vilões, por sua vez, são clandestinos que usam de maldade e suborno para conseguirem o que querem, podendo colocar toda uma cidade em risco, não é mesmo? É claro que sim, se tratando do mundo imaginário dos filmes e quadrinhos. Porém, na vida real esses papéis costumam se inverter.
Políticos deveriam ser aqueles que buscam soluções para os problemas enfrentados pela sociedade, apresentam propostas de melhoria de vida e defendem os direitos não apenas de seus eleitores, mas de todos os cidadãos. No entanto, a política (no mundo inteiro e em especial no Brasil) é um jogo de interesses entre partidos e patrocinadores de campanhas publicitárias sem compromisso com a população, uma grande corrupção à custa dos impostos recolhidos e desvios de verbas, em que não existe salvador da pátria. Apenas alguns são menos confiáveis ou mais corruptos que outros, salvo raras exceções. Dessa forma, mesmo que um político seja bem intencionado, é absolutamente impossível que ele possa mudar significativamente o sistema.
Fica evidente que os que deveriam representar os heróis frente aos jovens na realidade não o fazem, uma vez que não vêem vantagens em fazê-lo, pois o que deveria ser considerado um investimento - na educação e na saúde, principalmente - é chamado de “custo” social. Então, esse papel passa a ser interpretado pela família - aqueles que lutam para criá-los com dignidade e proporcionar as melhores condições de vida possíveis aos seus descendentes.
Muito embora vale ainda ressaltar o característico afastamento dos pais e filhos durante a adolescência. Assim, muitas vezes, caracteriza-se um vazio quanto ao papel de inspirá-los e estimular sua criatividade e pensamento crítico. É aí que surge uma grande questão: os jovens são liderados por aqueles que desempenham o exemplo máximo em seu contexto psicológico. O menino que gosta de ler, vê em grandes escritores seus ídolos; o que gosta de matemática, nos pensadores gregos; o que é mais chegado às artes, adora aos artistas renascentistas; e por aí vai, criando então referências válidas no que tange à formação acadêmica, profissional, cultural e vocacional. Mas o que acontece quando o governo, então, decide não desempenhar seu papel de investir nas condições básicas para esses meninos se desenvolverem, e atingirem seus potencias? Nas esferas mais prejudicadas da sociedade, as periferias, quem é herói, se os jovens vivem uma realidade de pobreza e violência, em que sair da miséria é mérito de algumas poucas pessoas de extremo talento, combinado com uma boa dose de sorte, como cantores ou jogadores de futebol?
Questão essa muito profunda e difícil de ser respondida, que merece, portanto, toda a atenção. A escassez de oportunidades de emprego e o sonho distante de uma vida melhor fazem com que os traficantes sejam considerados ídolos por parte dos moradores das favelas, porque controlam seu negócio mais lucrativo, as drogas, e com isso, conseguem uma maior notoriedade. Imagine, por conseguinte, um garoto, cujos pais se sacrificam todo dia em subempregos, que passa fome e vê só carros importados e correntes de ouro nas mãos dos "donos do tráfico". O que ele pensa de tudo isso? É uma situação triste, porém presente no cotidiano de milhões de adolescentes que desistem da idéia de estudar ou trabalhar e entram na criminalidade.
Muitas são as expressões culturais que retratam essa realidade. No campo da música, é possível destacar a canção de Gabriel, o Pensador, intitulada Palavras Repetidas, em que os versos “eu vejo um Bin Laden em cada favela, herói da miséria, vilão exemplar” vão de encontro à inversão de papéis declarada. A composição Rap é Compromisso, de Sabotage, também retrata de forma clara a vida de um traficante, que não deseja fazer parte do crime, porém está envolvido nele e é adorado pelos garotos da periferia, respectivamente nos trechos "disse muitas vezes não, não era o que queria, mas andava como queria, sustentava sua família..." e "exemplo do crime, eu não sei se é certo... na zona sul é o terror, ele é o cara do morro...". Mas o maior exemplo é o da letra de Numa Cidade Muito Longe Daqui, de Arlindo Cruz, Franco e Acyr Marques, interpretada por Marcelo D2 e Leandro Sapucahy. Nesta, é feita por inúmeras imagens e ironias, justamente a contraposição entre as figuras do herói, do vilão, do policial e do bandido.
Cumpre salientar também o filme Corpo Fechado, (2000), do diretor indo americano M. Night Shyamalan. Tendo como tema os próprios super-heróis, aborda exatamente seu aspecto psicológico. Samuel L. Jackson interpreta um sujeito de saúde frágil e que não entende a razão de sua existência. Viciado em histórias em quadrinhos, começa a procurar por alguém com super-poderes, literalmente o seu oposto. Acredita, então, ter encontrado ao conhecer o único sobrevivente de um acidente de trem fatal, o personagem interpretado por Bruce Willis. Excelente produção, intensa e que conta com talento ímpar dos atores e algumas cenas surreais, enfocando a necessidade do ser humano em ser alguém na vida, ou seja, assumir um papel perante a sociedade.
Mais uma reprodução artística verdadeira que pode ser encarada como o ápice dessa discussão é o longa-metragem Tropa de Elite 2 – O inimigo agora é outro, 2010, do diretor José Padilha, cuja atenção deve voltar à cena em que o Coronel Nascimento (Wagner Moura) admite não conseguir responder à pergunta de seu filho sobre a razão pela qual ele matava em seu trabalho, o que desjustifica a sua anterior heroinização por parte da imprensa. Tal ponto fugiu das telas e se tornou um dos assuntos mais comentados após os recentes conflitos do BOPE com os traficantes dos morros no Rio de Janeiro, em que a mídia estereotipou os dois lados do conflito de acordo com seus interesses. Porém, o real problema, que é a falta de condições, é mascarado, e acaba se propagando a ilusão de que a partir daquela ação militar, as coisas irão melhorar. Enquanto isso, na favela; são enterrados os mais novos mártires da luta contra a opressão social e a falta de preocupação de seus representantes políticos
Enfim, é chocante, porém comum ouvir que a solução para a maioria dos problemas atuais seria jogar bombas sobre as favelas e periferias, ou incentivos às ações como esta última citada. Elitismos à parte, conclui-se que as pessoas, ao tratarem o problema desta maneira, consideram apenas fragmentos de sua totalidade, enxergando uma imagem distorcida que chega a elas e que iguala os inocentes aos criminosos e, portanto, sustenta o preconceito. É crível que grande parte da população já não se ilude com discursos políticos, no entanto o maior responsável para solucionar essa desastrosa realidade é justamente o governo, que deve proporcionar ensino de qualidade e condições de vida dignas para o povo. Portanto, cabe a cada um de nós sermos prudentes e bem informados para melhor escolher os nossos governantes e, principalmente, tentarmos nos colocar no lugar do outro antes de julgá-lo, para então encontrar uma maneira de ajudar, seja ela qual for.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Piolho

-por Otávio Silva
.
A chuva já passara e as pessoas começavam a sair de baixo da proteção que a própria estação de metrô representava. Esta era a cena quando, após eu descer as escadas rolantes, me virei em direção às catracas para voltar para casa, após mais un longo dia de trabalho, naquela segunda-feira.
.
A camisa social cinza, que eu ganhei da minha mãe no natal passado, já flagrava o suor embaixo do braço pelo calor característico da época do ano. A gravata, eu já tirara e guardara no bolso, a fim de tentar amenizar a temperatura no empurra-empurra dentro dos vagões, normal para aquela hora do dia. Os sapatos e os cintos, apertadíssimos; meus pés já quase saltavam para fora, e a barriga, agora já fora da forma áurea da juventude, admito que também queria saltar. Meus óculos, apesar de embaçados pela umidade e transpiração minha e das pessoas ao redor, eu não podia nem pensar em tirar. Muito embora esquentavam minhas têmporas, fazendo-as suar ainda mais, sem eles, já faz tempo que eu não enxergo muita coisa.
.
Saindo da escada rolante, passei a catraca e, em seguida, pela beira - ainda gotejante - do teto da estação. É impressionante como São Pedro agendou a chuva junto aos patrões das empresas de São Paulo para a mesma hora que os empregados saem do trabalho. Todo dia: aquela chuva era sagrada pra a rotina do trabalhador paulistano: estava prevista na CLT. Parei no senhor da pipoca que fica ali à tarde, debaixo do seu toldinho, se protegendo da chuva. Já me sentia mal pela falta de sal no corpo: o corte do almoço, por parte da dieta sugerida pelo médico, realmente fazia falta.
.
Tentava fazer um certo malabarismo ao equilibrar o saco da pipoca e a carteira em uma das mãos e, ao mesmo tempo, com a outra, pegar e contar o troco. "Mista, com a salgada em cima, por favor!" falava em tom de voz alto um moleque ao meu lado. Eu me virei, terminando de guardar a carteira e vi que o menino mal alcançava o balcão improvisado do carrinho da pipoca daquele senhor. "Talvez por isso falava tão alto" pensei eu. Seu rosto denunciava sua idade: o rídigo contraste da pele lisa de jovem com algumas espinhas nas bochechas davam suporte para um emaranhado de cabelos que mais pareciam um ninho.
.
Eu já me virara, me distanciara do senhor da pipoca uns dez metros, e já esvaziara o saco da pipoca pela metade, quando aquele moleque me cutucou na ponta do seu chinelo:
.
- Tio, não é você quem trampa naquele banco da Avenida Paulista?
.
Eu, primeiramente, me assutei. Depois, que mané, "tio"? "Tio" é o escambau! E ainda mais, como ele realmente sabia o meu emprego?
.
- Não, sou eu não, moleque! respondi com muita insegurança.
.
-É sim! Eu tenho certeza! fazia ele um estardalhaço com a descoberta. Não é você quem fica ali no último balcão da esquerda? dizia ele com uma certeza nos dentes.
.
Meu Deus! Como é que esse moleque sabia isso?! E o que será que ele queria comigo?! Neguei denovo as perguntas dele, e tentando me desevencilhar do menino, quase escorreguei numa poça d'água que havia se formado e derrubei o resto das pipocas no chão!
.
- Tio, foge não, tio! Eu sou seu fã! - bradava o menino, com um sorriso cada vez maior no rosto.
.
Ele devia estar brincando comigo. Meu o quê? Meu fã? Em um primeiro momento, limpei as gotas de água da minha calça, empinei o nariz e caminhei leve pra casa, ignorando o menino. Imaginei-me de óculos escuros, cabelão, jaqueta de motoqueiro, igual aos meus ídolos da juventude! Ou então, de meia e calção suados, vestindo a camisa 10 do meu time de coração, com um monte de repórteres me rodeando na beira do campo. Mas aí lembrei das contas que ainda haviam a pagar, que me esperavam ansiosamente em casa, e caí em mim: se eu fosse de verdade alguma dessas figuras que, em um pequeno lapso de tempo, imaginei ser, não teria conta nenhuma a pagar, talvez nem mais me preocuparia com essas coisas, e, então, o moleque me acordou:
.
- Tio, que custa? Eu só quero um autógrafo! - agora esbravejava, após ter roubado um guardanapo daquele carrinho de pipoca e ter voltado correndo.
.
- Qual seu nome? - lhe perguntei, aproveitando que minhas mãos estavam vazias, por motivo do saquinho ter caído, e pegando uma caneta do bolso da camisa. Isto com a maior educação possível, considerando a minha vontade de chegar logo em casa e a clara impaciência com o guri.
.
- Pode pôr "Piolho", tio, é assim que a molecada me chama aqui no bairro. - respondeu o agora tímido e recém-nomeado "Piolho".
.
-Pronto!
.
O papel chorava "Para o Piolho, um abraço do tio do banco da Paulista" com a minha assinatura embaixo. A fragilidade daquele papel perto de minhas canetadas violentas, acumulou alguns rasgos junto à assinatura, mas para o Piolho não tinha problema. Deu-me um sorriso, estendeu-me a mão. Cumprimentei-o de volta e vesti um sorriso por todo o caminho de casa.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Minha Futura Ex-Namorada

-por Otávio Silva

Um amor pode ser pra sempre. Pode sim, claro que pode. E também pode não ser. Tem até aquela pergunta: "se é pra terminar, pra quê começar?", mas quando se começa um namoro, e mesmo no meio dele, não dá pra saber se vai durar ou não. Por mais que um dos dois queira muito a eternidade ao lado do outro, não dá pra ter certeza. Nem se um dos dois não queira de jeito nenhum. Mesmo ainda que os dois queiram ficar juntos até o final da vida. Mas uma coisa é certeza: ex é pra sempre.
.
Depois que o relacionamento acaba, o outro vira ex, e ponto. Não tem como mudar. Existe ex pentelho, que fica correndo atrás, enchendo o saco, agourando a antiga pessoa amada, até para esta não conseguir ter outro alguém. Porém também existe ex que não liga mais e desaparece. Mas são todos ex's.
.
Isso porque mesmo que um dos dois já tenha se relacionado com outras pessoas, independente de quantas, nenhuma delas - desde a primeira, até a mais recente - deixarão de serem ex's. Mesmo ainda que todo tipo de sentimento e relação se esgotem.
.
Inclusive se o sentimento se transforme a ponto de a relação mudar, para um tipo de amizade, sem segundas intenções, sem resíduos de mágoas, com as feridas curadas e tudo o mais. Vai continuar sendo ex. Ninguém se refere àquela pessoa com quem já teve algo sério, como "amigo(a)" para os próprios amigos, ou entes mais próximos.
.
Ao mesmo tempo em que se acontecer daquela pessoa ficar com alguém conhecido, alguém vai falar: "Fulano ficou com a ex de beltrano!". Até se, um dia, um ex-casal reate, ouvirão que voltaram com o/a ex.
.
É por isso que existem adjetivos que não cabem a alcunha de ex. Não existe ex-familiar: ex-pai, ex-mãe. Nem ex-amigo. Por mais que a pessoa já tenha morrido, ou tenham brigado, deixado de se falar, as pessoas costumam falar:
.
-"Ah, ele era meu amigo."
.
Ex já é outra coisa, outra palavra. E as palavras tem força de expressão própria, as palavras tem vida! Seja lá o que signifiquem exatamente...Por isso, é melhor tomar cuidado ao escolher seu possível próximo ex-namoro.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Inferno Astral

-por Otávio Silva


Era o amor se transformando em "bom dia". Eu estava pensando nela quando o celular tocou. O identificador de chamadas confirmou o meu pensamento: era ela. É... Ela bem que tinha mesmo dito que ia ligar. Demorou, mas ligou. Mas eu não quis atendê-la.
Nem um minuto passara que o celular parou de tocar e ela tornou a me ligar e eu, então, atendi de prontidão:
-Alô?!
Ela me respondeu "oi!" do outro lado, com a mesma voz meiga e doce que tinha ao telefone desde a primeira vez que eu tomei coragem de ligar pra ela. Perguntou-me se eu estava ocupado.
-Não, pode falar.
-E porque não me atendeu antes?
-Por que eu queria ver se você ligaria de novo. Ela riu e eu senti do outro lado da linha o seu sorriso de ternura. E eu continuei - É, foi pra ter certeza de que você queria mesmo falar comigo ou se foi só uma ligação do tipo: "olha, eu tentei te ligar, depois não diga que eu não tentei!"
E ela riu novamente, dessa vez de ironia:
-Não, claro que não, magina, eu nunca faria isso! Ela disse pra me provocar, pois sabia o quanto eu odiei todas as vezes que ela já havia feito - Quero mesmo falar com você! Meus parabéns pelo seu aniversário, querido! Te desejo tudo de bom e do melhor pra você e mais todos os mimos que você já deve ter escutado hoje, não é? Não se ache importante, mas é que você merece. Usou ela as mesmas palavras que usava há tanto tempo... Tempo que ficou pra trás.
-Brigado, foi só o que eu respondi, com um sorriso no rosto que eu sei que ela percebeu.
Um sorriso meio desbotado, ziguezagueando entre as nuances de cores próximas ao amarelo. Ficara realmente feliz com aquelas palavras e com aquela ligação. Depois de tantas vezes que ela tinha dito que ia me ligar e não ligara, mas dessa vez, ela ligou mesmo. De tanta gente que falou que ia ligar e não ligou, mas, pelo menos, dessa vez, ela ligou mesmo. De todos os mimos que eu já tinha mesmo ouvido e tantas coisas boas que pessoas tinham me desejado, dela era diferente. Ainda era diferente, depois de tanto tempo.
Eu apostaria comigo mesmo que se não atendesse todas as ligações de primeira, poucas seriam as que ligariam denovo. E eu sei que eu ganharia a aposta! E justo aquela que eu menos esperava que tornaria a ligar, tornou. Mas aquilo era pouco.
É engraçado como os sentimentos e relações mais profundas que você tem um dia, depois podem se transformar em um bom dia aqui, uma ligação no dia do aniversário ali, um cartão no natal acolá... Coisas simples, bonitas e que realmente importam, mas ainda assim pequenas. Insuficientemente pequenas.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Feliz Ano Novo

-por Otávio Silva

Só para constar, o ano de 2010 se despediu sorrindo. Seu último nascer do Sol foi muito mais bonito que o primeiro de 2011. Sorte de quem viu.

Inúmeros são os clichês dessa nobre época! "Ano novo, vida nova!", "o futuro já começou!", "feliz ano novo, adeus ano velho!", champagne, sementes de tudo quanto é coisa, pular ondinhas... Engraçado como a humanidade toda se reúne em torno de um dia, da mesma forma que a Terra gira em torno do Sol. E é justamente a cada trezentos e sessenta e cinco dias do início desse movimento, quando se completa a volta, inicia-se uma nova marca de tempo. Engraçado mesmo é comemorar tal data, seria uma forma de celebrar a mera continuidade de sobrevivência da espécie humana? E ao mesmo tempo em que é 2010 ainda aqui, já não é do outro lado do mundo, ou será que é ao contrário? Sei lá...

Mas como saber se essa festa é mesmo sua, é mesmo nossa? É mesmo de quem quiser; de quem vier? Deve ter sido curiosa a hora da virada para aqueles que trabalham soltando os fogos da Copacabana. E como será que foi a virada para o senhor que trabalha na portaria de prédio na praia? Ou para o que mora ali embaixo do ponto de ônibus perto da sua casa? Que azar o dos funcionários do metrô que não conseguiram folgar dia 31 à noite, hein? Ou azar seria não ter emprego para ter folga? O que seria mais triste, afinal: ter família, amigos e não poder comemorar junto ou simplesmente, não ter ninguém?

E você, passou bem a virada? Então, feliz ano novo.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O tal do Um Qualquer

- por Camilla Lopes

Ela desceu para fumar um cigarro enquanto esperava sua carona. Chovia fino e a paisagem estava cinza como Ela odiava, formando aquele cenário aconchegante para pensamentos indesejáveis. Ela estava sozinha, vazia e a vida ao seu redor parecia acelerada demais, vivida por viver. Quanto tempo mais aquele sentimento iria durar? Já fazia tempo. Alguns meses, talvez. Ela tinha medo de voltar para casa e conviver com ela mesma, não sentindo um ponto em especial para o qual voltar a atenção. O tal do objetivo de vida, a tal da convergência. Sabe, Ela é uma idiota por viver como numa tragédia shakespeariana. As coisas são mais simples do olhar de fora, Ela pensa, tentando ser fria. Mas não entende como certas coisas chegam a certos pontos. Metamorfoses, nostalgias etcétera. Ela não sabe mudar, quer ter o tempo nas mãos, dividindo-o em porções perfeitas de momentos perfeitos. Que se foda a perfeição, na verdade. Sim, existem momentos perfeitos, mas o que é a vida se não a busca por eles, no meio de uma neutralidade – talvez infelicidade - constante? De Shakespeare a Sartre, que masturbação mental. Paremos por aqui antes que eu dê uma de intelectual e esqueça que é uma perda de neurônio pensar sobre isso, Ela se corta.
Deixo tudo assim não me acanho em ver vaidade em mim Eu digo o que condiz Eu gosto é do estrago, Ele cantarola com um cigarro na boca e Ela se desconecta do fluxo de consciência, olhando para Ele. Jaqueta jeans Hard Rock Café - Save The Planet, um tênis do tipo sujo-rasgado. Um Bob-Dylan-sem-querer, porque Save The Planet’s e anos 60 hoje em dia sempre parecem forçados. Ele também olhou para Ela, meio inquieto. O que poderia acontecer? Nada demais. Coisas “demais” ficam para filmes, vontades, canções. Incrível como devemos perder almas gêmeas todos os dias por um banho atrasado ou um vagão de metrô errado. Ela começa a pensar nas coisas “demais”, na ficção que escreveria quando chegasse em casa e que provavelmente não sairia do jeito que Ela queria. Nunca sai. Ela pensa em como admira quem escreve livros e como isso não vira uma frustração na vida do escritor do jeito que é na sua. E pensa mais. Pensa demais. Ele a toca no ombro, Ela deixa novamente o mundo paralelo. What the hell? Ele está com a mão estendida no meio deles dois. Ela olha no olho dele, não entende e olha para baixo. Um bombom. Ela aceita, não é preciso dizer nada. Não é preciso pensar em nada. É o momento perfeito. Só continue respirando enquanto espera por mais outro.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O esforço pra lembrar é a vontade de esquecer




-por Otávio Silva



Muito se passou entre o início e o final de nossa história. Dez segundos? Dois meses? Três talvez. Um ano ou dois. Dez anos? Uma eternidade. Quem sabe até quando iria continuar.

Eu era ninguém perto dela. Sentia-me sempre um nada. Um ser insignificante: pequeno demais para ser notado, grande o bastante para ser esquivado. Durante a maior parte do tempo foi assim. Desde o dia que eu passei por aquela boca, até hoje, quando da boca dela saiu o fim.

Encolhi perto dela. E ela não me queria distante. Pôs-me num potinho de vidro. Daqueles com gargalo estreito e uma cortiça tampando. E carregava esse potinho pra tudo quanto é lado. Até que a situação se esgotou.

Ao passo do calendário, ela ia se cansando de mim e daquela garrafinha em que me carregava. E passou a me esquecer pelos cantos, quando saía. Às vezes jogado mesmo. Resolvi reclamar daquilo e, um dia, ganhei um cantinho especial pra mim na estante do seu quarto. De onde eu ainda podia tentar enxergar, por de trás das pálpebras fechadas, o que ela sonhava à noite...

A terra girou mais um pouco em torno do Sol e eu acabei rebaixado, como Plutão, que era planeta e agora não é mais. Fui colocado atrás dos livros naquela mesma estante. Uma tentativa frustrada dela de me esconder os seus novos amores, que invadiam a sua cama, em noites escuras frias e chuvosas, ou tardes quentes e vazias.

Eu ainda podia ver, pelas frestas dos livros inclinados um ao lado do outro, flashes do quarto. A cabeceira de cama, quase nunca habitada por apenas uma cabeça. O criado-mudo, ao lado da cama, que me contava sobre seus amantes, quando ela estava fora.

O resultado disso tudo foi o meu amadurecimento, o meu conseqüente crescimento diante do estado que eu me encontrava. Cresci que não encontrava mais na garrafinha calor e conforto, mas pressão e sufoco. As paredes de vidro viviam embaçadas do meu suor, como o boxe fica depois de um banho quente.

Ao mesmo tempo, parou de chover na horta dela. E creio eu que por isso, ela resolveu lembrar-se de mim. Como se nada tivesse acontecido, como se hoje fosse o dia seguinte àquele que ela me guardara ali, ela tirou livro por livro da estante, em frente à minha garrafinha e abriu um sorriso pra mim.

O mesmo sorriso lindo de sempre. Todos os dentes perfeitos, harmoniosos como o som produzido pelo teclado de piano que eles me lembravam. A sua boca emoldurava-os com a mesma suntuosidade de um ornamento coríntio da Grécia Antiga. Os seus olhos castanhos guardavam a vivacidade, do mesmo modo que a garrafinha ainda me guardava. Os cabelos, o nariz, a face macia... Tudo exato como a imagem que permanecia em minha cabeça.

Ela se lembrou de mim. Planejava me tirar do potinho, finalmente. Mas eu já não soube se queria mais. É difícil se acostumar com um lugar, mas mais difícil ainda é se desacostumar; se desapegar de uma lembrança de realidade perene que parece passageira. Assim, em vão, tentou me puxar com dedo pra fora do gargalo estreito daquela garrafa. Por eu ter crescido, porém, não era mais possível a minha passagem, nem pela boca da garrafa, nem pela boca daquela que me pusera ali dentro.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Resenha do texto “Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal”, de Milton Santos.

-por Daniel Bagagli


 

Texto: http://www.fundaj.gov.br/observanordeste/obex02.html

    A respeito do texto, Milton Santos descreve e analisa criticamente o fenômeno atual da globalização, citando suas bases estruturais e suas principais características, destacando, sobretudo, seus atores; além de auferir considerações finais sobre o processo analisado.

    Em primeira instância, Milton Santos logo adverte que o fenômeno da globalização atual não é "semelhante às ondas anteriores, nem mesmo uma continuação do que havia antes" (p. 140). Mais ainda, define-o como tendo influência, direta ou indiretamente, para a maior parte da humanidade, sobre todos os aspectos da existência.

    O autor caracteriza o processo, ainda, como um fenômeno que não se verifica de modo homogêneo, tanto na sua extensão quanto na sua profundidade. Santos observa que "os indivíduos não são igualmente atingidos por esse fenômeno, cuja difusão encontra obstáculos na diversidade das pessoas e na diversidade dos lugares" (p. 143).

    A cultura de massa adquire papel fundamental para Milton Santos, como um pilar do processo em análise, que tenta homogeneizar e impor-se sobre as culturas populares. É resultado de um mercado cego e alheio às diversidades culturais dos lugares e das pessoas.

    O que é interessante na obra de Milton Santos, é que ele discute uma questão chave dos dias de hoje: seria esse processo, um processo irreversível?

    A leitura atenta nos deixa claro que o autor tem completa ciência que a idéia de irreversibilidade da globalização atual "é aparentemente reforçada cada vez que constatamos a inter-relação atual entre cada país e o que chamamos de 'mundo'" (p. 149). Isto é, os países estão cada vez mais se juntando em um todo indissociável, criando relações também cada vez mais difíceis de serem desfeitas.

    Além disso, Milton Santos destaca que o "papel da ideologia na produção das coisas e o papel ideológico dos objetos que nos rodeiam contribuem, juntos, para agravar essa sensação de que agora não há outro futuro senão aquele que nos virá como um presente ampliado e não como outra coisa" (p. 159). Ou seja, a sensação de irreversibilidade se agrava ao analisarmos a situação dos objetos que nos cercam, permitindo acharmos que o futuro em nada será muito diferente do que esse presente que vivemos. "Daí a pesada onda de conformismo e inação que caracteriza nosso tempo, contaminando os jovens e, até mesmo, uma densa camada de intelectuais" (p.159), completa o autor.

    Todavia, Milton Santos declara: "A globalização atual não é irreversível" (capítulo 29, p. 159). Ele apresenta, assim, inúmeras opiniões e análises que o levaram a pensar dessa maneira.

    Em princípio, para Milton, o "novo" teria que nascer das centralidades – baseado na História, em que os atores principais eram sempre os países centrais. Porém, para ele os países centrais a mudar o rumo da História, agora, não são mais os países da Tríade (EUA, Japão e Europa): mas, sim, a periferia.

    A periferia – que com o processo atual de globalização é influenciada e cada vez mais dominada pela imposição dos interesses da Tríade (e de suas empresas globais)- seria o lugar em que nasceria a mudança. Isso porque é aí em que se dará o maior numero de indigentes e pobres, resultado do fenômeno de globalização atual. É dessa convivência com a escassez que nascerá e se fortalecerá a cultura popular (resistentes à cultura de massas e ao processo em questão), baseada na solidariedade social e na compaixão.

    Dessa convivência com a escassez ampliar-se-ia, ainda, a consciência dessa grande massa, passando a se questionarem quanto ao seu papel e importância no mundo.

    As culturas populares seriam capazes de reverter a globalização atual (vertical "de cima para baixo", para "de baixo pra cima"). Reverteria, também, a centralidade das ações: atualmente, o dinheiro é o motor primeiro e último das ações dos homens. Para Milton Santos, a centralidade das ações tem que ser o Homem, e o bem estar dele. E somente as culturas populares conseguiriam dar forma a isso.

    O fenômeno de globalização talvez seja, em si, irreversível. Entretanto, devemos nos questionar: que globalização queremos?

    Milton Santos responde: uma outra.

    Uma outra cuja centralidade das ações seja localizada no Homem, ao invés do dinheiro. Uma outra que se caracterize por cooperações horizontais, baseadas na solidariedade social e na compaixão. Uma outra caracterizada pela revalorização filosófica do Homem.

    "Essa revalorização radical do individuo contribuirá para a renovação qualitativa da espécie humana, servindo de alicerce a uma nova civilização" (p. 169).

    

domingo, 7 de novembro de 2010

Teste Vocacional do Brasil

-por Otávio Silva


 

    Vocação, vocativo, invocar, evocar... Quando dizemos que alguém tem vocação para realizar algo, queremos dizer que essa pessoa está respondendo a um chamamento. Chamamento talvez de Deus, da Vida, dos pais, de alguém. É uma inclinação, uma habilidade, um jeito especial para aquela coisa... É um dom! É um dom... Engraçado.

    Seus hábitos, suas perguntas, seus valores, suas respostas, sua personalidade, seu jeito... Tudo desmascarado, desmistificado. Tudo a sua disposição para você escolher o que quer fazer de sua vida. Tudo à disposição para escolherem o que querem fazer de sua vida. Tudo à disposição.

    Todos doutores: médicos, publicitários, arquitetos, advogados, designers, nutricionistas, dentistas, engenheiros. Todos sucedidos: jogadores, pilotos, atletas, artistas, astros... Astros! Não é nem um pouco fácil chegar a tudo isso, mas ainda assim todos tem alguma dessas respostas nesses testes.

     Noites sem dormir, livros devorados, medos transpassados, cálculos certos, cálculos errados. Turnos virados, chefes estressados, treinos esforçados, aulas mal assistidas. Cenas e jogadas ensaiadas, maquiagens borradas, pernas machucadas. Você quer passar por tudo isso? Não? Nem eu.

    Porque ninguém tem vocação para ser, assim, sei lá... Faxineiro? Por que não? Quem sabe?! Limpador de vidros em andaime! Que tal? Passador de roupa, servidor público, taxista, motorista de ônibus, pedreiro. Por que não? Quantos testes você conhece cujo resultado indicou o caminho de Deus? Ou ser professor do ensino público? Ou funcionário do sistema carcerário brasileiro?

    Parece-me que este negócio de vocação é uma pura justificativa moral ou talvez social para que as pessoas sigam um caminho profissional bem aceito, um caminho que, sobretudo, aumente, ou ao menos mantenha, o extrato hierárquico social que a pessoa ocupe. E o que acontece com as outras profissões é que, além de continuarem sendo sempre mau vistas, elas também são desvalorizadas por grande parte das próprias pessoas que as executam.

    É claro que existem pessoas com vocação ao trabalho voluntário, ou ao serviço social comunitário, mas quantas realmente sabem disso, ou quantas são impulsionadas para outros caminhos por pressão das pessoas ao redor? E quantas pessoas querem realmente ajudar o Estado? Ou apenas sugar dele o que dele conseguir? Férias remuneradas, décimo terceiro, irredutibilidade de vencimentos, inamovibilidade, aposentadoria integral...

    Cada um só quer se ajudar. E também ajudar os mais próximos. Ache a sua vocação, ajude-se, e tente estar em uma linha não muito distante do horizonte daqueles que conseguirem o sucesso na área onde decidirem seguir.

domingo, 31 de outubro de 2010

Mentalmorfose Ambulante

-por Otávio Silva


 

    O tele transporte é, basicamente, a ideia de conseguir suprimir as nossas noções de espaço e tempo ao mover um objeto de um lugar para outro, em pouquíssimo tempo, sem a passagem por um espaço intermediário. A internet e o scanner são, então, formas de tele transporte, já que transportam informações de aparelhos em diferentes lugares para outros em uma velocidade praticamente instantânea? Não, ambos se utilizam de cabos e fios até mesmo inter oceânicos para realizarem seus trabalhos. Serviços de comunicação sem-fio, como a internet wi-fi, ou mesmo o antigo rádio, se transportam através de ondas magnéticas, eletromagnéticas, de rádio.

    Experimentos recentes promoveram a locomoção de informações, ainda que muito pequenas, como fótons, por até dezesseis quilômetros, sem transição espaço-temporal. Quem sabe, um dia, com a evolução das pesquisas e tecnologias disponíveis, possamos nós, seres humanos, sermos objetos de tele transporte. Tal experimento se deu através de uma forma de um "scanner" de tais substâncias e a posterior "impressão" destes em outro lugar.

    Imaginemos o mesmo procedimento com seres humanos. Uma pessoa que tivesse todos seus átomos, moléculas e células, todas, todas (eu disse TODAS) suas substâncias eliminadas, armazenadas e transferidas para outro lugar, onde se re-materializariam, poderia ter sido tele transportada de fato? Que mais uma pessoa, além de sua matéria, é?

    No caso, a pessoa em si teria morrido para dar lugar, ou melhor, para dar corpo a outra. Ou será que é essa a fórmula mágica que deva ser utilizada após três dias da morte? Brincadeiras e religião a parte, parece totalmente plausível dizermos que uma pessoa é feita das experiências às quais ela foi exposta ao longo de sua vida.

    Sendo assim, é você exatamente a mesma pessoa que tomou aquela bronca, da qual você se lembra, da professora do jardim por falar alto durante a aula? Foi você quem fez aquele excelente contrato com a empresa logo que saiu da faculdade? Foi você mesmo quem caiu de bicicleta e quebrou o braço aos 10 anos? A mesma pessoa que está lendo este texto e tem um monte de preocupações diárias e visões de mundo agora é realmente a mesma que saiu do útero de sua mãe? Se não, quem é, então?

    Caso você menospreze as experiências que teve durante a vida e todas as noções que sua mente propõe todos os dias diante das situações a que ela é posta em trabalho e valorize mais a sua forma material e substancial, é possível que você se dê por satisfeito se você for retirado de sua vida e um clone ou uma imagem "scanneada" sua seja posta no lugar.

    Caso você não se dê por satisfeito com isso e valoriza a sua vivência psicológica em detrimento do material, é capaz de concordar com alguns pontos: um casal de velhinhos que já tenha filhos e netos não pode se dar ao luxo de dizer que conheceram um ao outro durante a adolescência, mesmo se assim fizeram, pois as pessoas que eles conheceram há um tempão não são as mesmas que hoje chamam de "marido" e "mulher", uma vez que cada uma delas já passou por inúmeras situações na vida deles desde que se conhecem que com toda certeza modificou muitas visões, convicções e até mesmo modos de ser.

    Da mesma maneira isso acontece com um patrão que contratou seu empregado há muito tempo, com dois amigos de infância, com um pai e um filho, um presidente e seu eleitor, um criminoso e a vítima e qualquer outro tipo de relação humana. Por isso que algumas ações devem ser muito bem pensadas, como a pena de morte, a votação, o aborto, o casamento, a gravidez, a contratação de alguém.

O que acontece geralmente é que essas modificações, que as pessoas sofrem, ocorrem talvez de modo pouco sensível para quem acompanhe o processo todo. Qualquer tipo de experiência é capaz de modificar uma ideia: a visão de um por do Sol, a visualização da possibilidade de alcançar o poder, a audição de um "te amo", a rejeição de uma pessoa querida, uma derrota amarga, um bom filme, uma música intensa, quem sabe algum desses humildes textos que aqui habitam o blog. Considere, logo, a possibilidade de que todas essas experiências juntas possam mudar a mente de alguém. Os conhecimentos se encadeiam em forma de um tetrix, cujas peças se sobrepõem, se misturam, mudam de posição, deixam espaços vazios, são postas de lado...

Um componente interessante são as viagens. Algumas pessoas distanciam-se do seu ambiente e fazem coisas que não eram acostumadas a fazer, exatamente com esta justificativa, como se não contasse para nossas experiências, como se fosse posta em memory card, que podem retirar quando quiser. Também por isso que quando alguém faz uma viagem longa para um lugar diferente, dizem que ela volta diferente. Pois quem tem contato apenas com a amostra inicial e final da pessoa consegue distinguir um do outro e ao mesmo tempo que quando voltamos de alguma viagem dessas, não somos somente nós quem mudamos, mas o lugar e pessoas a nossa volta também.


 

Bibliografias: